Thursday, May 26, 2011

sou o insecto de mil patas que tacteiam o lado mais luminoso das sombras. circulam em mim venenos novos. composições químicas e segregações de coisas maiores que me extravasam. frágil condição de ruína ou realidade oculta além das aparências. na precariedade da terra onde se flutua, sem tocar o chão, temendo criar raízes e ter de permanecer.

tenho navios que me desbravam o peito e sulcam na pele e entre os ossos a sua rota. ouço o pranto de marinheiros e o canto de sereias sem braços. tenho horas de sono e séculos de cansaços. onde os sonhos não entram mas roçam o lado de fora. o que sou já aqui não mora. está noutro corpo que morreu ou nunca existiu ou nunca foi meu. e a vida não pára para que se sinta o mundo. e este não gira quando o olhar é profundo, querendo ficar de esgotado, naquilo que sabemos que, por vezes, é errado.

certas coisas existem que uma vez conhecidas se perdem para sempre, em lugares onde tudo se confunde:

mas gosto de como a língua se move fechada entre os lábios a ler poesia. em movimentos perpétuos. e dos olhares que rasgam o horizonte do campo, como pássaros loucos a voar nas primeiras chuvas. gosto de livros inacabados e palavras imperfeitas. de sorrisos tímidos e viagens sem destino nem regresso. gosto do verso, da prosa e da fala. do som dos passos no burburinho aflito das ruas. gosto de coisas cruas, arrancadas do osso. do que se perde e permanece nosso. e de como tudo se conjuga. se sobrepõe e aluga. gosto de tudo e gosto de nada.

e dizem, que um sol nasce diferente a cada madrugada. ou talvez tantos sóis existam quantos corações se esculpem à luz do que lhes falta.

a minha alma é doente. e sei de verdades que não compreendo. como uma dor que se nomeia sem saber ao certo se se imagina ou se sente.

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