Wednesday, November 24, 2010

o coração não cabe na gaveta da mesa-de-cabeceira. desarrumei o quarto, desfiz a cama. e ainda assim não vejo quem aqui se esconde. talvez lhe pertencesse mas já não esteja aqui.

o armário entreaberto, com o seu sorriso engomado de camisas brancas, espreita-me. o sangue ainda está quente e no entanto a cama fria. alguém definitivamente o perdeu. tento falar-lhe mas não me responde. ou então também não queira.

afinal, não me espanta: nem todo o amor depois de cair se levanta. e para onde foi o corpo não são precisas palavras mais que as da pila e uns trocos na algibeira.

um ninho de peúgas gastas servir-lhe-ia de morada. mas o coração é velho. de certeza envelheceu entre ruínas. dilatou-se em sonhos. não cabe na gaveta da mesa-de-cabeceira.

 

que faço com um coração nas mãos enquanto ele apodrece?