que importa o desenho de espaços se aqui já não há quem viva. para deixar a sombra invadir o rosto, atenuar o contorno dos lábios e acentuar a dimensão das palavras molhadas em saliva.
entorpecer as horas em transes de etílicas proporções, danças selvagens e memórias tatuadas no coração da carne exposta. que importa a voz se do outro lado ninguém responde. a noite permanece intacta dentro do sono e a manhã esquece-se de si. a claridade da treva ensina agora aos olhos o movimento do mundo e a fenomenologia das paixões.
que importa que doa o que a verdade transporta. abandonar a casa e provar da terra fecunda a seiva amarga do finalmente acordar. conter as veias pulsantes de acidez prestes a rebentar. que importa o corpo se aos outros de mim nada diz (e aqui não há quem viva). poder revelar o que se a alma existe reclama mas pertence ao olhar. ecos de tempestade, chuva miúda nas artérias, matéria de sonhos, ventos de saudade.
que importa o que fica se o que ficou são resquícios de ser. aqui já não há quem viva. aqui já não está quem mora. o corpo permanece e a alma foi embora.
Friday, July 09, 2010
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