Thursday, July 14, 2011

e há tantos anjos maus que caminham por aí

à espera de ocupar um lugar dentro de ti

capazes de tudo para se sentirem vivos.

 

beijam-te a face despercebidos

deturpam-te os sentidos  

 

não os deixes entrar. não queiras.

sentir com eles tudo de todas as maneiras.

Thursday, May 26, 2011

sou o insecto de mil patas que tacteiam o lado mais luminoso das sombras. circulam em mim venenos novos. composições químicas e segregações de coisas maiores que me extravasam. frágil condição de ruína ou realidade oculta além das aparências. na precariedade da terra onde se flutua, sem tocar o chão, temendo criar raízes e ter de permanecer.

tenho navios que me desbravam o peito e sulcam na pele e entre os ossos a sua rota. ouço o pranto de marinheiros e o canto de sereias sem braços. tenho horas de sono e séculos de cansaços. onde os sonhos não entram mas roçam o lado de fora. o que sou já aqui não mora. está noutro corpo que morreu ou nunca existiu ou nunca foi meu. e a vida não pára para que se sinta o mundo. e este não gira quando o olhar é profundo, querendo ficar de esgotado, naquilo que sabemos que, por vezes, é errado.

certas coisas existem que uma vez conhecidas se perdem para sempre, em lugares onde tudo se confunde:

mas gosto de como a língua se move fechada entre os lábios a ler poesia. em movimentos perpétuos. e dos olhares que rasgam o horizonte do campo, como pássaros loucos a voar nas primeiras chuvas. gosto de livros inacabados e palavras imperfeitas. de sorrisos tímidos e viagens sem destino nem regresso. gosto do verso, da prosa e da fala. do som dos passos no burburinho aflito das ruas. gosto de coisas cruas, arrancadas do osso. do que se perde e permanece nosso. e de como tudo se conjuga. se sobrepõe e aluga. gosto de tudo e gosto de nada.

e dizem, que um sol nasce diferente a cada madrugada. ou talvez tantos sóis existam quantos corações se esculpem à luz do que lhes falta.

a minha alma é doente. e sei de verdades que não compreendo. como uma dor que se nomeia sem saber ao certo se se imagina ou se sente.

Wednesday, November 24, 2010

o coração não cabe na gaveta da mesa-de-cabeceira. desarrumei o quarto, desfiz a cama. e ainda assim não vejo quem aqui se esconde. talvez lhe pertencesse mas já não esteja aqui.

o armário entreaberto, com o seu sorriso engomado de camisas brancas, espreita-me. o sangue ainda está quente e no entanto a cama fria. alguém definitivamente o perdeu. tento falar-lhe mas não me responde. ou então também não queira.

afinal, não me espanta: nem todo o amor depois de cair se levanta. e para onde foi o corpo não são precisas palavras mais que as da pila e uns trocos na algibeira.

um ninho de peúgas gastas servir-lhe-ia de morada. mas o coração é velho. de certeza envelheceu entre ruínas. dilatou-se em sonhos. não cabe na gaveta da mesa-de-cabeceira.

 

que faço com um coração nas mãos enquanto ele apodrece?

Friday, September 24, 2010

é uma pena. às vezes a alma é pequena demais para nos reter. resistimos aos dias mas eles não param de doer.  iludimos as horas, as esperas e as demoras. cobrimo-las de sensações e enganos.  e outras distracções que não estavam nos planos. para quê?  tudo quanto o olhar vê. não chega. a fome que sacia não nos aconchega.

a língua que sente de fundo a textura, perde-se do tempo dessa aventura. há algo que cresce ao anoitecer. trocam-se as vestes, os rostos e o prazer. enquanto uns despem as máscaras de si, outros há que passam por ti. sem saber a razão que os levou ali. tão ingénuos são os que acreditam que atrás do coração, possa existir um lugar que escape à morte e aí voltar.

mas quando o sono ataca. do corpo libertam-se fantasmas de faca. que nos apunhalam as costas. beijam-nos a testa e perguntam: gostas?

Tuesday, September 21, 2010

a minha doença é ser português. bipolaridade prática, alguém diria: estar justamente arrumado nesse espaço entre a tristeza e a alegria. das manhãs de sol e a melancolia da chuva, assentamos nos dias como uma luva. gostamos de mar tanto como de terra. e onde haja vida a nossa palavra é a que mais ferra. no fundo só sabemos ser. pois se uns escrevem, outros têm de ler.

a minha doença é existir. autisticamente sensível às coisas que habitamos mas não cabem dentro de nós. até concordamos mas todos sabemos estar sós. e o que no medo há que nos estremece, só o sabe quem dele padece.

porém, falo de mim. este texto não vos pertence.

as saudades de alguém que me peça para ficar: esquecidas. tenho a vida pela garganta (mas já matei suicidas) e ausento-me em hipnoplastias  e catarses. sem saber o que fazer enquanto me ardes.

pensar:

é sempre a perder, algures num beijo. depois que tudo principia. manipulamos as sombras e alguém se arrepia.

a minha doença é a cura. desdita. veneno de fados e rock à mistura. acredita. tenho alma de marinheiro com catarro e sangue de camponês. alguém me arranja um cigarro. outra vez? tenho sempre um maço no carro, pena não ser português.

Friday, July 09, 2010

     que importa o desenho de espaços se aqui já não há quem viva. para deixar a sombra invadir o rosto, atenuar o contorno dos lábios e acentuar a dimensão das palavras molhadas em saliva.

     entorpecer as horas em transes de etílicas proporções, danças selvagens e memórias tatuadas no coração da carne exposta. que importa a voz se do outro lado ninguém responde. a noite permanece intacta dentro do sono e a manhã esquece-se de si. a claridade da treva ensina agora aos olhos o movimento do mundo e a fenomenologia das paixões.

     que importa que doa o que a verdade transporta. abandonar a casa e provar da terra fecunda a seiva amarga do finalmente acordar. conter as veias pulsantes de acidez prestes a rebentar. que importa o corpo se aos outros de mim nada diz (e aqui não há quem viva). poder revelar o que se a alma existe reclama mas pertence ao olhar. ecos de tempestade, chuva miúda nas artérias, matéria de sonhos, ventos de saudade.

     que importa o que fica se o que ficou são resquícios de ser. aqui já não há quem viva. aqui já não está quem mora. o corpo permanece e a alma foi embora.  

a vida é uma sucessão de histórias interrompidas. um desdobrar de coisas que nunca chegaram a ser. uma contínua e inquietante pronúncia de “e se’s…” que se apegam à memória dos acontecimentos simples. amores perdidos, palavras que ficaram por dizer, gestos que se acanharam na hora certa, passos errados na estrada. todos eles dizem agora a grandeza do que somos. ainda que o que tenhamos seja nada. porque o que somos nunca é o que queríamos ser. e o que queríamos ser é perpétuo. alma gémea do corpo que o espelho reflecte e o nome rotula sem que o possamos compreender.

tantas vezes me disseste tu, que não conheço e nem me conheces, que já não sei mais o que posso ser ou sonhar pretender. todos os meus pensamentos foram vendidos, expostos ao mundo e deixaram de ser meus. e do que fica nada resta. nem mesmo a alegria de algo que partiu porque tinha de ser. 


e se eu não sentisse ainda estaria aqui? se eu não fosse mereceria viver?

Thursday, July 08, 2010

A genialidade não é mais do que uma consciência de que se nasceu antes ou depois de um tempo que não nos pertence.
morro para te envolver
no sufoco dos abraços
que ainda sentem este corpo contra o teu
no contentamento
de apenas uma amputação serena
dos lábios perdidos um do outro.

Friday, July 02, 2010

à deriva em ti
como um insecto atraído pela luz
circunscrevo gestos abstractos
até que outro corpo possa ser a minha morada.

Thursday, July 01, 2010

o que dói é não puder voltar a ser
aquilo que fomos e ainda queremos viver.

o que dói é não puder retornar
ao tempo onde estivemos e queríamos estar.

não custa partir.
o que custa é ficar
se para onde vamos já não saímos do mesmo lugar.

Sunday, June 20, 2010

numa expurgação de lágrimas embalada por um movimento perpétuo. o tempo desta carência aproxima-nos. em afastamentos distanciais diversos que tomam agora os nossos ossos. e ainda que as palavras te esgotem: todos os corpos se afeiçoam. 
porque hoje, o vazio nada é mais do que este silêncio branco circunscrito por palavras. espaço onde a dor encontra a sua morada e se dilui rarefeita. espasmos de tinta debruçados para o abismo que habita as fissuras das entrelinhas.
mais do que dizemos importa tudo o que calamos. simplesmente porque permanece nosso. embora pressinta no ar a urgência de descobrir o que é urgente.
seguro a caneta com a gravidade trémula de quem hesita pensar. quero-me tanto de todas as maneiras que receio nunca chegar a ser. e assim a vida decorre num inacabado suicídio. que leva à morte de coisas belas. somente por serem belas. ou à colecção de coisas inúteis. objectos pueris. matérias imperfeitas.
agora que nunca houve poesia. uma respiração lenta paira sobre o sentir do tacto. o sentir de outras noites até este infinito. 
como uma película aderente de sono sobre a realidade o mundo tem a forma das minhas mãos e o tamanho do meu pensamento e eu. de novo voltarei a caber dentro dele até perecer.

Friday, May 28, 2010

enquanto o gelo não nos quebra os ossos

gastamos no ar sorrisos que não os nossos.

se és tu quem me olha por dentro

ensina-me a razão do descontentamento

mostra-me a luz de uma descoberta

ainda que a rota seja incerta.

enquanto a noite se despe de si

tu sabes que estrelas vieram por ti.

se és tu quem me diz mesmo não dizendo nada

não esperes por mim sentada à chegada

quero antes te ver entre o agora e o depois

sem nenhum de nós saber o que será dos dois.

um dia no qual seremos sem demora

o que havemos guardado em nós até ao fim

não compensa a espera impaciente de agora

e a alma que vai não espera por mim.

corre o dia em desvario ardendo num pavio

e antes que a morte fique para ver

já o amor é o desvio que não impede de doer.

Saturday, May 22, 2010

e como posso ser eu algo que se veja

se no fundo de mim apenas sobrou a inveja

de não ter nascido no tempo de outras lutas

mais cedo que todas estas poesias brutas

e combatido a fome de um ego sedento de tudo

até ficar cego de um luto mudo.

como posso eu ser a metáfora, a hipérbole ou qualquer expressão

se a vida continua o seu rumo mas já não enche o coração.

...

já nada tenho para te dar.

a realidade é uma fotografia do nada. uma abstracção.

e para onde quer que guie o olhar

aquilo que vejo contém o trago da ilusão.

Saturday, November 28, 2009

tudo aquilo que outrora sonhei o tempo consigo o levou.

dele restam memórias e sei. sou hoje aquilo que não sou.

Tuesday, June 30, 2009

carrego esta dor latejante nas pálpebras como na boca sorrisos perversos
vermelhos e cheios

da bruma de outros tempos 
onde éramos fogo ao invés de versos

carrego comigo baladas amargas que a trova jamais verá dedilhadas
no retumbar de uma guitarra

e na boca trago águas 
de línguas
antigas outrora sagradas.

Wednesday, June 24, 2009

talvez porque lágrimas há que não vemos e outras que os outros não vêem.
Sobre(a vida)vivemos. e em solidão nos encontramos.

Monday, March 16, 2009

ditados por ninguém que não nós.
o que quer que procuremos não se coaduna com a condição desta existência. nem mesmo um sentir que possamos julgar só nosso.
somos uma realidade abstracta dentro da filosofia do real. produtos inacabados que ninguém compra. o que quer que sejamos agora já não somos nós. foi corrompido. embora as nossas noites nos tentem enganar em utopias, somos o somatório de todas as partes partidas das quais coleccionamos os pedaços.
estamos vazios a transbordar por dentro de tudo que não nos pertence.
como fraudes de uma individualidade inexistente
numa cidade desabitada pela vida somos essa medida de tempo no qual vivemos. sem sabermos porque somos a medida
e a liberdade não é mais do que um vulto entre duas diferentes celas
nem morte ou conquista de sonho.
antes o fim de tudo isto pelo qual nos conhecemos.

Wednesday, January 28, 2009

que me resta agora senão as palavras duras
de catarses defectivas
quando o rumor do mundo se transfigura
nos meus parágrafos de silêncio

Monday, December 22, 2008

o amor é um orgasmo impossível. cercado por um quarto de quatro paredes caiadas de branco. um fim do dia onde poucas palavras custam mais que silêncios

porque me é triste falar de amor (?)